DE MEMÓRIA, ÉTICA E UTOPIA NA LIRA DA LEGIÃO URBANA UMA LEITURA DA CANÇÃO HÁ TEMPOS

 

Marília Cerqueira Gomes - UFF

 

Parece cocaína mas é só tristeza, talvez tua cidade / Muitos temores nascem do cansaço e da solidão / ( ... ) / Há tempos tive um sonho / Não me lembro. Não me lembro / Tua tristeza é tão exata e hoje o dia é tão bonito / ( ... ) E há tempos nem os santos têm ao certo / A medida da maldade / Há tempos são os jovens que adoecem / Há tempos o encanto está ausente / E há ferrugem nos sorrisos / E só o acaso estende o braço / ( ... )

 

Há tempos é a canção que abre o quarto álbum da banda Legião Urbana (As Quatro Estações) datando, ambos, de 1989. Este grupo se projetou de maneira bastante expressiva no cenário cultural brasileiro durante um curto, mas intenso período da conjuntura político-cultural que se estende de meados da década de oitenta até meados da década de noventa. Manteve até o fim sua formação básica original: Dado Villa-Lobos, Marcelo Bonfá e Renato Russo e só se desfez em virtude da precoce morte deste último, aquele que era seu letrista e sua voz.

Destoando da trivialidade, embora suas canções nascessem da experiência rasteira do cotidiano, os rapazes da Legião desafiaram o impacto negativo de uma rala receptividade inicial. Superando expectativas e alguns ventos que sopravam contra, de maneira mais ou menos rápida, foram conquistando espaços significativos na mídia e, principalmente, no imaginário de uma parcela significativa da população constituída basicamente de jovens que vivendo nas grandes e médias cidades reconheciam naquelas canções a expressão de muitos de seus desejos, receios e, sintomaticamente, de algumas precoces frustrações. “Até bem pouco tempo atrás/ Poderíamos mudar o mundo/Quem roubou nossa coragem? / Tudo é dor.”(Legião Urbana, Quando o sol bater na janela doteu quarto).

No caso da canção aqui escolhida para estudo, desde a primeira escuta não é difícil perceber o vigor do ritmo que nela pulsa acelerado mantendo-se constante na batida quase invariável que a acompanha do início ao fim. Mais do que isso, é ele quem amarra a divisão em compassos estruturando a base sobre a qual a canção irá se desenvolver. Fato corriqueiro no dito bate-estaca do rock. Do ponto de vista melódico, seu traçado menos comum apresenta uma tessitura bastante larga, envolvendo curvaturas de até duas oitavas. Esse material melódico também é reiterado no movimento da canção, embora isso aconteça de forma menos acentuada e, portanto, perceptível.

De fato, a estrutura repetitiva é uma das características que o pop carrega, mas que não necessariamente atua como limitador dessa forma de arte geralmente associada de forma tão imediatista aos rótulos consumistas. E assumindo tal feição, o rock, ao descomprimir ou extrapolar certo dogmatismo, a disposição e ordem principalmente rítmica que evidenciava e sustentava a consistência do rock and roll que agitou os anos cinqüenta, arrisca-se num projeto mais aberto e, consequentemente, ambicioso, permitindo uma série de novas experiências em suas variantes matizadas: rock balada, rock folk, rock country, rock progressivo, rock grunge, rock Brasil ... Sonoridades diferentes se entrecruzam propiciando um espaço mais abrangente que não se situa no plano conceitual mais arraigado da música popular, mas que se desdobra em um universo bricolado de possibilidades que é a própria cultura pop. E o rock é o pop por excelência.

Mas é também fato verificável a relevância da letra nessas experiências, ou seja, aquilo que se canta, sempre teve, guardadas as diferenças de estilos, um papel fundamental para o rock. Os Beatles e Bob Dylan, são referências inesquecíveis nesse sentido, pois foram suas as canções que, a partir de meados dos anos sessenta alongando-se por toda a década seguinte, foram abrindo caminho para letras mais líricas, reflexivas, que atravessam culturas e tempos diversos. Cantavam o amor, falavam da experiência libertária/onírica com as drogas, da necessidade de acreditar e lutar, em meio então à dura realidade da Guerra Fria, pela paz. Registros que não se perderam.

No caso do movimento artístico nacional no qual a banda Legião Urbana tomou parte e que recebeu a denominação – não sem controvérsias diga-se de passagem, embora não seja este o tema aqui em pauta – de Brock, o texto da canção também não passaria desapercebido. Em face de toda uma tradição de grandes letristas que marcam a história da MPB, a cena cultural brasileira da década de oitenta também se mostraria generosa ao revelar o lirismo particular de jovens poetas como Cazuza, Arnaldo Antunes e Renato Russo.

Em Há Tempos, cuja letra é do Renato, mas que tem sua autoria como um todo trabalhada e assinada pelo grupo, nos deparamos já nos primeiros versos com a imprecisão absoluta e surpreendentemente tão clara na experimentação do tempo. Tal fato se faz presente na temática, na forma como estão construídos os seus versos, no ritmo que se impõe.

Cantada uma única vez e sem possuir qualquer refrão, a canção possui versos cuidadosamente trabalhados que remetem a observações de caráter universalizante simultaneamente articuladas à especificidade de um contexto particular que fazem referência, por sua vez, à complexidade da cultura urbana contemporânea. Imaginário resgatado, inclusive, no próprio nome da banda a sugerir um lastro de identidade esparsa: eram eles, afinal, a Legião Urbana.

Em seu texto, a repetição intencional do coordenativo /e/, torna-se um recurso bastante expressivo que insinua um movimento contínuo, ainda que represente o início de um outro verso, de um outro tempo. E são as ausências insistentes, rememoradas num jogo de comparações sensíveis, que motivam o desenrolar da canção. E a lembrança e o esquecimento, não raro, se cruzam no alijamento de um sonho.

Visto já o fato da melodia e do ritmo da canção serem reiterados frisa-se, então, a observação de que a letra desta canção, além de não se repetir, atua também como um elemento chave, pois capaz de imprimir direcionalidades a esta. Entre o banal, corriqueiro, conjuga-se um tom mais elevado que ora tensiona, ora dilui a distância entre o clichê e a imagem poética presentes na canção. Seus versos irregulares dispensam a rima em consonância com a inerente assimetria que marca também o conturbado ambiente urbano marcado pelas relações de desigualdade e pelo individualismo moderno. Esta passa assim a constituir uma referência essencial que é, ao mesmo tempo, dentro e fora da canção.

As longas horas de tristeza avizinham agora a dor da droga, na solidão e no descompasso ético de um mundo urbano que também adoece. Poderíamos mesmo dizer que sua temática principal gira assim em torno da degradação do homem, em sua sensibilidade particular, nesse contexto. Traz à tona o discurso das ausências: a falta da virtude, entendida enquanto reflexão ética mais abrangente e a indiferença em face à solidariedade (“...só o acaso estende os braços...” ), a falta de projetos e sonhos, bem como o esquecimento não fortuito já que nem tudo pode ser rememorado ( “...tive um sonho, não me lembro, não me lembro...” ). Um alinhavo delicado a entrelaçar memória, ética e utopia não de maneira explicitamente textualizada, mas como elemento constitutivo da própria canção.

Enquanto o ritmo externo desta se mantém, um outro movimento vai sendo desenhado de modo sutil, sustentado pela letra e pela voz. Se as batidas contínuas prescrevem o movimento veloz e encobrem a percepção das pausas e dos silêncios – não parece haver a possibilidade do repouso- a voz/o texto, por sua vez , diversas vezes entra em atraso, isto é, depois da música e em outros tantos momentos se cala articulando significativamente os silêncios na agilidade da canção. Dessa forma, é possível perscrutar um ritmo interno sendo trabalhado não apenas dentro, mas a partir mesmo dos limites aparentemente justos que emolduram a canção; é a valorização de um jogo de contrastes que escapa às facilidades da lógica do mecanicismo dual remetendo ao plano mais profundo da experiência sensível poética.

Há tempos vale-se de uma percepção temporal indefinida no qual passado e presente podem ser experimentados simultaneamente. E por entre continuidades e rupturas esboça um desejo de futuro que encontra simbólico respaldo no timbre grave e na dramaticidade que ressoa sem pudores na voz e na interpretação do Renato, marca indelével que atua entre os pequenos gestos que surpreendem ao conduzir a canção. Nelas, no texto e na voz, o conflito, o tom auto-irônico, às vezes profético, coexistem de forma singular. Certa percepção melancólica também é revelada no sentimento íntimo que resiste às sucessivas perdas, mas também está nas chagas expostas pelo acirramento das diferentes formas da violência urbana a amputar ou perverter valores, corroer as afetividades, sepultar vidas. Seu arranjo harmônico no qual acordes maiores e menores se sucedem expressiva e alternadamente durante toda a primeira parte da canção acentua a identificação desta particular sensibilidade. De alguma forma a canção faz lembrar a tonalidade blue – mesmo não se registrando ali a presença da blue note- presente também no rock, a misturar o sentimento de tristeza e o gesto de resistência; rebeldia, inadequação, desencanto precoce de jovens que adoecem em meio à indiferença típica das metrópoles e da sua própria história.

Mas a canção é um diálogo, ainda que essa estrutura não seja tão óbvia. Através da forma indireta, um sujeito lírico se articula por vezes mostrando-se com clareza e, em outras tantas, confundindo sua voz com a de um outro com quem compartilha a dor em comum ( com quem fala? ). No caso, é significativo perceber a forma como está pontuada, desde o primeiro verso, o uso da droga, a cocaína. Diferentemente da postura presente nos movimentos de contracultura, no qual inclusive como já mencionamos o rock encontra a sua origem (anos 60 e 70), nenhuma viagem onírica parece mais possível, a experiência política do êxtase, o princípio do prazer. “The dream is over”, seria, então, a célebre frase que o próprio John Lenon anteciparia. A cocaína deprime e expõe a dor de uma geração imprensada entre o sonho e o seu fim, entre o ato de rebeldia e a submissão plena. Durante uma entrevista à época do lançamento desse álbum, Renato acrescentaria o seguinte comentário: “... hoje em dia não temos Vietnã ou amor livre, mas temos Nicarágua e Aids” ( A Tarde, BA, 7/11/89 ).

O futuro seria então algo vazio, sombrio? O que esperar ou construir pela frente? Não há se quer a possibilidade da nostalgia que busca reviver um passado feliz. Sensação esta bem próxima da reflexão que faz Rouanet em artigo recente no qual especula sobre as possíveis afinidades entre os filhos do nosso século e a geração romântica do século passado, vagamente melancólica: “... não podemos nem sonhar para trás, porque o passado nos enganou, nem para a frente, porque aprendemos a desconfiar das utopias. Estamos acordados. Exilados no presente.” ( Rouanet, Sérgio. Os filhos do século. In Jornal do Brasil/Idéias, RJ, 4/12/1999 )

Mas não é com as asperezas que o rock lida? Não são elas que o alimentam? Nesse sentido, as quebras e alterações, de modo geral, parecem imprescindíveis. No caso da canção Há tempos, além dos contrastes já pontuados é fundamental ressaltar a mudança expressiva que se dá quando a voz começa a cantar/clamar por “proteção....” . Os sons passam aí a ter a sua duração prolongada ao mesmo tempo em que a canção vai se abrindo, não por acaso. Na harmonia, agora alterada, não soam mais os acordes menores.

 

Meu amor, disciplina é liberdade

 / Compaixão é fortaleza

 / Ter bondade é ter coragem

 / E ela disse:

/ – Lá em casa tem um poço mas a água é muito limpa.

 

A voz em seu registro forte, claro, enfatiza a mensagem ( esperada?...) que, em consonante mudança melódica, quebra aquele movimento contínuo que a sustentava na imagem da dor, da tristeza e de tudo o que restou na ausência do amor. Seus versos passam assim a combinar pares que não sugerem aproximação instantânea, simples: disciplina/liberdade, compaixão/fortaleza, bondade/coragem. De tal maneira, é a autodisciplina que é destacada como valor positivo sublinhando assim a idéia de liberdade; a força, por sua vez, não é associada a nenhum feito heróico em sua grandiloqüência, mas ao gesto humano, anônimo e solidário, de se comover profundamente em face à dor alheia que é sua também; e, complementando essa mesma seqüência de idéias, vem a associação entre bondade e coragem. A aparente fragilidade encontra seu veio forte e a canção vira hino! Surpreende pelo tom edificante não simulando, todavia, uma versão do tipo moralizante. Tal fato parece também não guardar nenhum parentesco com o compromisso didático, ou a vocação pedagógica típicas das canções engajadas, visto que, por exemplo, a valorização que faz da postura ética não prescreve condutas morais, deixando-as em aberto. Seu gesto afirmativo, apenas instiga à reflexão sobre os valores humanos atemporais. Nesse sentido, alarga a crítica político-social mais pontual em prol da reatualização de uma visão humanista.

Ao final, nos dois últimos versos, se verifica o único discurso direto do diálogo que atravessa a canção. A voz do outro, na troca que todo o diálogo supõe, por ela mesma e a imagem do poço, fundo, mas transparente porque possui a água clara. Capaz, portanto, de refletir a própria imagem, embora não se possa ver o seu fim. Uma voz anônima que surpreende na possibilidade entreaberta de, ouvindo o outro, vislumbrar um espaço para além. A imagem do poço assim como a da fonte, na simbologia expressiva da água limpa e clara que brota das entranhas profundas da terra é espelho que assegura identidade, é memória, fonte da qual devemos beber pois como o amor também persevera; é promessa de vida. E é nesse momento, ao articular esses versos finais, que a canção retoma a mesma divisão rítmica inicial contundente.

Observada, no entanto, à distância sob o prisma que busca enfatizar o incontestável poder manipulador da indústria cultural, Há tempos, assim como tantas outras canções, integra o vasto campo das insossas produções descartáveis.

 Obviamente não se pode desprezar a inserção dessas canções no universo mercadológico, contudo, urge discutir as análises e premissas que investem tão-somente em ressaltar nelas o caráter perecível inerente à dinâmica utilitarista das sociedades que se deixam deglutir pela lógica do capital. Destituídas de valor próprio seriam, sob tal ponto de vista, meras reapropriações feitas por indivíduos serializados pela cultura de massa. De modo que, mesmo reconhecendo certo condicionamento que vincula essas produções ao foco astuto e ordeiro da indústria cultural, é necessário estar atento às observações apressadas, repetitivas e redutoras que, não raro, acabam por validar os argumentos legitimadores da ordem estabelecida por pelo menos dois motivos: enfatizam a estrutura capitalista como um bloco monolítico e excluem, ou dissimulam, invenções artísticas cuja percepção sinaliza pequenas ranhuras evidenciadoras das inconsistências e contradições dessa construção.

Se de fato devemos valorizar importantes estudos que contribuem para alertar a respeito das determinações que viabilizam e amoldam as produções artísticas nesse contexto parece indispensável estimular pesquisas que possam, no tocante ao também sutil e diversificado universo das representações estéticas, reconhecer e estudar com maior profundidade as formas estéticas e situações criativas que flagram ambigüidades e contradições no tecido, supostamente forte e coeso, da lógica em que impera o sentido da troca capitalista. Pois, no interior mesmo dos limites que as cerceiam, algumas manifestações artísticas conseguem manobrar ardilosamente, escapando ao caráter reprodutivista que ali estaria a interagir. Insignificantes desvios? Esboços de antidisciplina? Como entendê-las fora de qualquer imediatismo e das conclusões previsíveis?

A invenção artística, tomada em sua concepção mais larga e vigorosa, não cede a nenhum mecanismo objetivo que relacione linearmente o contexto social, o artista e a obra. No seu espaçamento possível, deformando, reinventando, transgredindo o que seria o real em seu aspecto mais contundente, está sempre a reatualizar o jogo das reciprocidades na dinâmica delicada e específica que o pressupõe.

A Legião, a exemplo de outras bandas de rock, era integrada por jovens de classe média, que durante a década de 80, vivendo nas grandes cidades, reuniam-se em apertadas garagens formando bandas precárias que, na urgência de se manifestarem, ousavam, a partir de um mínimo de acordes, articular uma sonoridade própria, sem renegar, contudo, as influências diversas. Foram também estigmatizados diversas vezes como representantes radicais e desmemoriados de uma geração pouco nacionalista e, por conseguinte sem caráter pois, rendidos às falsas novidades, vilipendiavam sua cultura e sua própria história. Não teriam eles conhecido nem a luta, nem o luto dos anos de chumbo.

Empunhando suas barulhentas guitarras elétricas a emitir sons distorcidos – as mesmas que já haviam sido combatidas na famosa passeata ocorrida em 1966 – desafiavam, arrogantemente talvez, os limites da abertura política. Mas o país que comemorava a volta da democracia e a Nova República ainda inflava jargões ufanistas tão disseminados durante a ditadura militar acreditando, conservadoramente, ser a promessa do futuro.

Não se colocaram, então, à margem (geração marginal) e assumiram os riscos de uma outra estratégia que nem sempre poderia ser bem-sucedida: a possibilidade de reinventar a partir do previsível, do lugar-comum, enfim, do próprio sistema. Nenhuma grande obra, apenas pequenas produções de autoria coletiva.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

BADIOU, Alain. Ética: um ensaio sobre a consciência do mal. 2. ed. Rio de Janeiro: Relume-Dumará,1995.

CERTEAU, Michel. A invenção do cotidiano: artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 1994.

DAPIEVE, Arthur. Brock: o rock brasileiro nos anos 80. 2. ed. São Paulo: 34 Literatura S/C Ltda, 1996.

Legião Urbana. O melhor da Legião Urbana. São Paulo: Irmãos Vitale,1999.

MUGGIATI, Roberto. Rock: o grito e o mito. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 1993.

SANTIAGO, Silviano. Democratização no Brasil – 1979-1981 (Cultura versus Arte). In ANTELO, Raul (org.). Declínio da arte; ascenção da cultura. Florianópolis/SC: Letras Contemporâneas e ABRALIC, 1998.

SARLO, Beatriz. Cenas da vida pós-moderna. Rio de Janeiro: Editora UFRJ,1997.

TATIT, Luiz. O cancionista. São Paulo: Edusp,1996.